A imagem, pouco consistente, estava sentada, de costas. Apesar da efemeridade a que estava fadada, eu conseguia distinguir suas formas. Suas costas estavam eretas, os cabelos eram compridos. Eu permanecia estático sem mexer um único músculo, deitado em minha cama. A figura encontrava-se muito próxima dos meus pés. Uma lamentação sussurrante podia ser percebida. Meu coração descompassado pela agonia denunciava minha consciência. Meu peito parecia não mais resistir à força do músculo que se contraía com violência, empurrando a adrenalina a todos os cantos. A respiração começara a ficar irregular. Difícil controlar o barulho que esta provocava. Enregelei-me naquela posição. Uma ansiedade esmagadora me assaltou. Uma síncope era inevitável. Desejável mesmo, dada às circunstâncias. Um suspiro grave escapou-me. O espectro virou o rosto, olhando por sobre os ombros. O que pode ser mais penoso que o medo intenso e emético? O som agora emitido por aquilo era um amálgama de choro lamurioso e risos escarnecidos. O perfil da coisa denunciou o absurdo impregnado no desenho horrendo que a caracterizava. Um grito automático, grave e sentenciador, foi a única resposta que consegui àquilo. No meio da noite. Em um quarto onde luzes bruxuleantes se manifestavam a serviço da parca luminosidade que adentrava pela janela. Como se nada mais aterrador pudesse ocorrer, a fantasmagoria avançou lançando um grito trêfego e agudo, que foi se agravando, culminado num barulho rouco e pesado. Tudo escureceu, então.
Acordei e ainda estava envolto nas sombras de uma madrugada fria. O quarto parecia menor. Os cantos estavam mais escuros. Muito mais escuros que o resto do cômodo. As cortinas eram levemente embaladas por calmas brisas. Eu não estava sozinho. Um chiado me lembrou disto. Vinha de um dos cantos que eu não podia divisar. Levantei-me o mais rápido possível e sentei sobre a cama. O som que vinha daquela treva concentrada começou a tomar contornos inteligíveis. Infelizmente. Apliquei uma atenção irresponsável no entendimento do que estava sendo dito:
- Saiaaaa... – era o que eu parecia estar ouvindo.
- Saiaaaaa...
- Saiaaaaa daquiiiii...
- Saiaaaa daquiiiii... agoraaaa – um sibilar aconselhava. Pelo menos era o que eu conseguia escrutar naquele sussurro entenebrecedor. Tentei, então, esclarecer ainda mais a mensagem e cometi a estupidez de falar-lhe.
- O quê?
- Quem é você?
O medo estava me arrebentando as entranhas, mas, ainda assim, negligentemente eu perguntei. Aquilo parece ter enfurecido o que quer que estava naquele canto escuro, e que se revelou de maneira colérica. Um rosto lívido, com órbitas negras e íris completamente pálidas se projetou da penumbra e vociferou:
- Saiaaaaaaa!
Fui jogado, como que empurrado por braços decididamente verossímeis, ao chão, batendo a cabeça contra a parede. Quando abri os olhos, pensei haver passado muito tempo desacordado. Mas as sombras que me enlaçavam diziam abertamente que não. Um desespero de profundeza abissal me possuiu. Meu peito doía muito. Fui até a janela na tentativa de me proteger na pouca luz que esta oferecia. A dor aguda em meu peitoral me fez levantar a camisa e investigar. Duas marcas de um roxo quase negro estavam impressas. Como estigmas. Eram horrendos hematomas. Mas, o mais terrível eram as formas destes. Mãos! Eram mãos! Corri desabaladamente para a porta. Girei a maçaneta com desmesurada força, empurrando-a para frente e para trás sucessivamente. Socando-a. Não cedia um só milímetro. Um frio congelador se abateu em minhas costas. Uma respiração fétida e fria se fez sentir. Um conturbado espasmo me afligiu. Virei o mais devagar possível, num tremor descontrolado, e um hálito com odor da morte penetrou minhas narinas. Um assombro incalculável estava à minha frente. A carne carcomida da face, num esgar infernal, expunha gengivas purulentas que sustentavam dentes putrefatos. Um mal pujante parecia ser o patrimônio único daqueles olhos enegrecidos e amorfos.
- fvfocêêê não ssssaiiuuu..
- fvffvocêê deviaaa saaaiiido terrrrr....
A fala desarticulada agravava o horror exalado por aquela presença. A primeira noite que passei em minha nova casa. Assombrada de maneira contumaz.
****
Ele estava sentado na cama, assustado. Muito. Olhava para mim, mas não podia me ver. Estava, eu, encoberto pela escuridão de um dos quatro cantos do quarto. Estava tentando avisá-lo quando retrucou:
- O quê?
- Quem é você?
aNeste momento me livrei parcialmente das coisas que me prendiam a escuridão e gritei à ele, mostrando apenas meu rosto deformado pelo desespero:
- Saiaaaa!!!!

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