segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

No mundo dos espíritos

Parte 4

- Que horror. Então foi assim? Até as árvores em volta daquele sítio são secas, retorcidas. Parece que ninguém vai lá a mais de 45 anos, também pudera...

- E não é só. Por meios místicos ela aprisionou essas almas lá. Atormentadas e presas por ela, eu nem nos meus tempos áureos cometia coisa de tal alcunha. Aham, bom. Como deve saber pegaram ela certo dia no terreiro chicoteando em carne viva uma outra criança de 7 anos filha de um empregado. Bom a criança tava tão deformada pelos espancamentos constantes e pelos pedaços tirados...

- Eu já vi as fotos da época, pensei que fossem montagens.

- Não eram mesmo. Daí ela foi pega, ao invés de matarem, amarraram ela naquele quarto lá e a entupiram de tranqüilizante. O medo das pessoas era tanto que depois de um ano mergulhada nesses remédios, erraram a dose e ela morreu por overdose.

Aí ela passou a assombrar aquela antiga ala, vários médiuns interviram para que ela não saísse de lá.

- Uau. E como você sabe disso tudo?

- Eu tentava salvá-la a séculos... – Disse virando-se de encontro a parede.

- Perdão. Mas, peraí. Se ela é tão má, porquê você quer que eu vá lá? Sabia que era uma armadilha...

- Escuta aqui garota. – Falou seriamente repousando as mãos sobre o ombro dela. –
Você é diferente de tudo que já vi. Não sei explicar, acho que irá resolver esse impasse, sinto isso.

Os olhos se fintavam, Ângela via nos olhos dele que dessa vez ninguém iria mentir para ela. Então se virou e percorreu novamente aquele corredor sinuoso e adentrou na saleta e disse:

- Maria Josefina, precisamos ter uma conversa. – Estava tremendo.

- Rum, rum, rum... – Disse uma voz muito tenebrosa.

A alma, ou algo mais, permanecia encolhida no canto da saleta abandonada. Porém seus olhos emitiam cada vez mais uma luz densa, parecia que iria perfurar Ângela. As coisas na sala começara a emitir uma leve vibração. Ela tentou estabelecer contato novamente:

- Você está me ouvindo... – Esgueirava o pescoço mais adentro da sala, não entrava completamente devido ao pavor.

- Rum, rum, rum... – Repetia.

Voltando seus olhos para o corredor via a distância que a luzes do hospital piscarem incessantemente. Antes da próxima tentativa, a própria Maria Josefina iniciou a conversa:

- Rum... Slototh, sinto o seu cheiro daqui. Ele te mandou jovem espírito? – Falava com uma voz grossa, rasgada.

- J-jovem? – Gaguejava.

- Rum, rum. Exato, seu cheiro criança, seu cheiro. É de coisa nova, faz tempo que não encontro uma. Parece-me ser a segunda vinda sua aos encarnados. Você é clara, límpida.

Maria se levantou e encostou-se a uma maca mostrando sua fisionomia característica. Cabelo loiro escuro, muito comprido. Estava com uma roupa rota, comprida. Ia até os pés, seu rosto estava todo marcado, como se a pouco tivesse recebido bofetões. Os braços cheios de marcas de picadas de agulha, o braço esquerdo ainda havia um manguito preso. Ela não havia mudado nada em si desde a própria morte.

- Rum, me diga o que quer ou será destruída. – Ameaçou. – Nem aquele demônio medroso ali fora, mal pôde me conter aqui e você pretende o mesmo? Já estou presa aqui.

- Porquê?

- Ameaças minha cara, ameaças. Problemas de meu longo passado. Agora me diga porque está aqui. Você é nova, fraca. Não pode me destruir. Ouviu Slototh?

- Nem eu sei. Ele me pediu pra entrar aqui.

- Escolha curiosa a dele. Bom, faz tempo que não destruo ou absorvo outrem.

- Me destruir como? – Falou apavorada.

- A mente e a alma são formas de energia. E como tal, é só convertê-la em outra para destruí-la. Ou como meu caso, absorvê-la pra me fortalecer.

A essa altura Angel já estava dentro da saleta, tarde de mais pra sair. Como um trovão, rapidamente Maria enfiou a mão dentro do corpo etéreo de Ângela. Essa por sua vez, desde a sua morte, sentia uma sensação familiar, a dor. Vagarosamente empurrou

Maria Josefina para fora da saleta e soltou um grito.
Slototh por sua vez fez algo incrível, invocou as almas vingadoras de Josefina. Do nada a mesma se viu cercada pelas almas de seus antigos algozes e vítimas. Assustada parou a absorção e Angel se viu fora da roda. A maldita disse:

- Não, rum, não...

Então essas almas mergulhando sob um ódio profundo em Maria, nesse momento o Hospital se viu na mais completa escuridão.

- Mas o que...? – Indagava Ângela mesclada em meio a confusão.

A mesma se mantinha encostada na parede assustada. A luz de emergência demorava a voltar, espíritos não dependem de luz para enxergarem uns aos outros. Ela via muitos, incontáveis iguais desferirem golpes em outro, provavelmente Maria Josefina. Até Slototh parecia assustada tamanha a selvageria instalada no mundo dele.

As luzes de emergência começavam a piscar, querendo voltar. Rapidamente Angel olhava para todos os lados sem entender o que acontecia, em meio aos flashes incessantes de luz via os espíritos sacramentados naquele hospital começaram a se espalhar pela ala abandonada. Por fim a luz voltou, tirando os que já assombravam por ali, os espíritos vingativos sumiram.

- Acabou criança. – disse Slototh apoiando umas das mãos em Ângela. – Finalmente acabou.

- O que aconteceu?

- Nem eu entendi, eu só os invoquei. Ou a destruíram ou a levaram como prisioneira pra outro local... – Disse confuso. – Usei o que tinha sobrado de mim pra invocá-los.

- Agora que essa loucura passou...TÁ MALUCO? QUERIA ME MATAR DE UMA VEZ?

- Uh...calma, me deixe-me explicar garota.

- Estou ouvindo. – Olhava-o com uma cara nada amigável.

- Você é um espírito jovem, por isso, raro. Coisa que não se encontra fácil, e está na segunda encarnação e ainda bem pura.

- Perae, deixa eu ver se entendi. É mesma coisa que gritar “Quem aqui é virgem?!?” num baile funk?

- Er...hum. Acho que entendi sua colocação. Por aí, você nunca cometeu, como vamos chamar...falta grave. Em sua primeira vinda morreu bebê, nessa segunda jovem. Ou seja, pura. Maria Josefina era quase demoníaca, se pudesse visitar os locais maus como o Umbral ela ia rivalizar com os mais antigos de lá. Ela não pôde absorvê-la pois ainda és luz. Aí meu plano se concretizou.


- Você está com uma aparência humana agora. O que é isso?

- Inicio da minha redenção. – Sorriu. – Vem, vamos andar um pouco pelo hospital, descansar.

Iniciaram a caminhada, o demônio convertido ia contando sua história de como mudou de idéia e porquê havia escolhido aquele local, quando de repente fora interrompido. Assustado via um funcionário do hospital atravessá-lo indo a uma ala infantil. Angel não entendo a paralisia repentina de seu novo amigo perguntou:

- O que você tem? Que cara é essa?

- Aquele que nos transpassou, acho que ele pode ser ele que maculou seu cadáver!

- Como...?

- Ele está possuído! Um demônio dentro dele! Nunca o vi por aqui. Vamos! Vamos investigar suas ações!

- Isso é normal acontecer?

- Sim, mas aqui, ainda mais comigo, não!

- Então vamos atrás dele!

Assim o seguiram, apesar de Slototh ter localizado um demônio dentro do enfermeiro, mesmo quando sozinho não aparecia agir como um, basicamente o rapaz ficava na ala da UTI neo-natal e cuidava muito bem dos recém-nascidos.

- Slototh, pra um camarada seu ele não tá fazendo nada!

- Realmente. Não me estranha, deve ser algum tipo de demônio-parasita.

- Um o quê?

- Isso que você ouviu. Não são somente almas denegridas que se alimentam de vivos, como almas de alcoólatras sempre ficarem em bares influenciando os presentes para eles se alimentarem da energia ou atormentados que se alimentam do medo de desafetos. Mas eles fazem isso fora do corpo normalmente, essa classe de demônios se alimenta aos poucos de dentro do corpo o ódio da pessoa, rancores e coisas do tipo. Até matá-la ou enlouquecê-la.

- Nossa...ih, tá amanhecendo! Faz dois dias que não durmo!

- Não precisamos, muito menos conseguimos.

- Ai, ainda mais essa. Caramba, quase me esqueço! Meu enterro é as 8, vamos!

- Desde da inauguração deste hospital, a décadas, eu não saio. E eu tenho uma missão...

- Tá, tá, tá...ouvi essa ladainha a noite toda. Anda, vem!

Com muito sacrifício ela pôs Slototh para fora do hospital. Rapidamente se puseram no caminho do cemitério. No meio do caminho Ângela encontrou com o próprio enterro. Quase todos os familiares estavam presentes, dos amigos, só os devidamente reconhecidos estavam lá. Estranhamente Adriana ainda não havia voltado ou por outro motivo não estava presente. Ouviu a conversa entre alguns que seguiam a triste procissão que sua avó e seu irmão não acompanhavam aquele ritual por ser a antagônica entre a inocência e o sofrimento da velhice.

Pensou que a amiga estive dopada para não conseguir sair. O cemitério ficava no alto de um morro. Pelo horário o céu se maquiava de um rubor digno de um novo dia que amanhece Ângela sentiu como se fosse uma homenagem a ela, o dia estava lindo. No cortejo o silêncio imperava, só era transpassado pelo choro, soluços e lamentações. Emocionada, a jovem alma chorava enquanto acompanhava o destino final do próprio corpo.

O seu caixão era branco, as argolas que serviam para carregar eram dourados, assim como havia detalhes prateados por todo caixão. Reluzia naquela luz de um novo dia. O mesmo era conduzido ao seu leito final pelo pai, dois tios e um primo. Estava encoberto por uma bandeira branca, era o que Ângela sempre pregava desde seus poucos anos de vida: a paz e a compreensão.

Por fim chegaram ao cemitério, Angel se assustou. A quantidade de outras almas perdidas ou assustadas naquele local era impressionante. Algumas até, pelo desespero, simulavam que estavam presos vivos nos próprios caixões. Estavam junto com seus corpos podres ou ossos, pareciam que queriam reencarnar em seus velhos corpos, tentavam incessantemente voltar.

Logo a jovem reparou que muitas seres negros ou com roupa preta zanzavam pelo cemitério em um movimento intenso. Não possuíam olhos, pele extremamente pálida, pareciam que iriam se partir a qualquer momento. Assim, ela perguntou:

- Olha! Quantos demônios!

- Não são demônios, são ceifeiros.

- E o que seria isso?

- Sua origem eu desconheço. Só sei que sua missão é pegar as almas recém desencarnadas e conduzi-las a um destino que eles mesmos traçaram.

- Não me lembro de nenhum deles ter me tirado do corpo ou coisa assim.

- E não foi mesmo. Senão você nem estaria aqui, deu sorte. Se algum deles te pegasse sabe-se lá de seu destino final. Eles são poucos pequena, eficientes, mais insuficientes.

- Entendo. Olha, chegaram na cripta. Vão me enterrar junto a outros familiares. Caramba, quantos mortos em volta do caixão! Vou tirá-los de lá agora.

- Não se apoquente. Está tudo bem. Devem estar procurando sua alma dentro do corpo.

- E o que aquele tal ceifeiro tá fazendo rodeando a minha tia sem parar?

- Pesquisando, ela é a próxima da lista a passar pro nosso lado.

- Hum. Bom, ela é diabética, hipertensa e fuma. Não é pra menos.

- Nossa, você falou igual médico.

- Andei fuçando em livros da área pra alertá-la. Pelo visto não adiantou. – Disse em tom de angústia.

O enterro prosseguia. Por fim, já na cova. O ritual de despedida ocorreu sem interrupções. Por fim, o caixão começou a descer lentamente. Dizem que na hora da última despedida, os verdadeiros sentimentos são expostos. No enterro de Ângela não foi diferente, uma tia na qual ela tinha muito contato na infância desmaiou. Sua mãe estava tão dopada que mal sabia onde estava, seu pai tentava conter o rio de lágrimas represado em seus olhos.

Uma antiga amiga estava presente, haviam brigado a muito anos por ciúmes típicos da época de transição entre a infância e a adolescência. Dela partiu as ações mais comoventes. Praticamente saltando sobre o caixão implorava por perdão da falecida amiga. Lamentava os anos de ausência, de uma verdadeira amizade que se perdeu em meros detalhes. Tiveram que tirá-la praticamente a força do local e levá-la para casa pra se acalmar. Os presentes que ainda de alguma forma tentavam segurar a tristezas para si, ali a liberaram.

Continua....

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