segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

No mundo dos espíritos

 Parte 2

- Como vovó?

- Depois te explico. E não fale fantasma de novo, tudo bem? Não somos fantasma. Agora se acalme.

- M-mas vovó...

- Se acalme, você tá se adaptando muito rápido. Por isso o choque.

- Se a mamãe papai virem o meu corpo eles morrem também!

- Minha filha, se apoquete não. Eles vão ficar bem.

- Agora vamos te registrar...

- No céu ou no inferno?

- Hehehe. –Soltou uma risada a velha olhando alegremente para a neta. – Eles não existem.

- Não? – Devolveu um olhar mais assustado que já estava.

- Agora me acompanhe, não quero que você seja contaminada com certas forças. Seu registro aqui vai ser sua garantia de não ser perturbada.

- Perturbada por quem?

- Isso vai ter que descobrir sozinha. – Disse a idosa num tom sério.

- ...

Depois disso prosseguiram no caminho. Ângela conhecia bem a cidade, estavam se aproximando de um bairro perigoso, o dia já raiava no horizonte. O pensamento e os sentimentos dela não se afastavam da família. Dobrava num beco perigoso, apesar da rápida adaptação, a garota mal enxergava outras almas.

Sentia um cheiro nauseabundo saindo daquele lugar, olhava para o fundo do beco. Parecia que não chegaria nunca ao fim. Lá, viu uma sombra. Era o primeiro pós-mortem que via além de sua avó. Tinha olhos vermelhos, mal via a fisionomia. Seu coração dispararia caso ainda o tivesse. Se conteve no silêncio e ouvia sua avó conversar com o ser:

- Ordem de registro, septuagésima nona geração, terceira reencarnação...

Ela sentia que tinha coisa errada ali, poderia um espírito sofrer mais ainda?

- Hmmm. – Ângela engolia a seco.

Os dois estavam num canto escuro e muito enevoado, cochichando. Parece que planejavam algo. Olhavam para ela toda hora, parecia ouvir risos. Assim, ela tomou coragem e forçou seus olhos para tentar enxergá-los de forma mais nítida.

No início percebeu nada de muito diferente, mas sua avó também agora também tinha olhos vermelhos, ela não entendia o que significava aquilo. Parecia ser ruim, porquê sua avó faria aquilo com ela? Aquilo...aquele lugar cheirava muito mal, sentia um clima de depressivo, melancólico. Sentia vontade de chorar.

Mais uma vez forçou a olhar, e eles conversando. Sua avó já voltava para encontrá-la, apertava os olhos, enfim enxergou a verdade. Começou a ver o que seus olhos até então mortais não viam, os outros mortos. Os espíritos que ainda vagavam pela Terra.

Aquilo não era sua avó, de alguma forma alguma alma má tornara a sua amada avó. E agora a adolescente enxergava tudo. Vagarosamente se afastava, à medida que o ser que ainda julgava se parecer com sua avó, se aproximava. Rapidamente ele apertava o passo e começou a correr.

De longe aquela alma má gritava seu nome, com a verdadeira voz, muito tenebrosa. O clima ainda parecia muito acinzentado, não sabia para onde ir. Estava totalmente perdida. Quanto mais becos cruzava, mais da miséria era captada por seus olhos. Mas não era a miséria humana, que pode se mostrar mesquinha. Era a miséria que se escondia no âmago da alma, agora sendo demonstrada na forma de seus corpos etéreos, para todo o sempre.

Caminhava silenciosamente, tinha medo. Outras almas berravam a sua volta, tinha de todas as espécies e pelas roupas rotas que vestiam, alguns pareciam estar ali a séculos sofrendo. A maioria ainda não tinham saído do estado de semi-morte, estavam êxtase. Reviviam sem parar o momento de sua morte. Outros, enlouquecidos com a descoberta que não era mais vivos gritavam para os céus implorando para retornar.

Ângela assustada com tudo aquilo começou a ficar extremamente com medo, levou as mãos ao rosto e pensou. Era a hora de escapar daquela loucura na Terra, achar seu caminho, seu destino. Este fosse o céu, este fosse o inferno.

Andou por horas a fio pela estranha neblina, descobriu que espíritos não dormiam. Um forte desespero tomava conta dela. Soltou um grito, alto, condoído...sobrenatural. Na hora as névoas se dissiparam, ela viu novamente a luz do sol. Percebeu que toda a caminhada a levara para o local de origem, onde havia morrido.

O local ainda estava cercado por pessoas, e conversando sobre a brutalidade da morte da pobre garota. Dali ela ouvia todo tipo de coisa que as pessoas diziam sobre o mistério que ouviam sua morte, tudo, menos a verdade. Tudo se cercava das piores hipóteses: bebida, algazarra, drogas...e até se prostituindo.

Ouvir isso a tornava amarga, triste e ainda mais solitária. Novamente começou a gritar e a tentar bater em todos ali presentes. E alguns ali presentes como se sentissem a presença do espírito da garota começaram a se afastaram, exceto por uma velha senhora que ali rezava. E alguns espíritos que estranhamente a cercavam. Mal teve tempo de levar o questionamento adiantes, lhe veio algo de súbito na cabeça:

- Meu deus! Mamãe, papai. Meu enterro!

Dali saiu a toda, em questão de minutos estava em casa. O local estava cercado por amigos, família e pessoas que de alguma forma foram tocadas pelo seu coração. Desesperada se adentrou até a sala. Não via nenhuma pessoa lá dentro, nada. Somente seu caixão branco cercado por flores de todos os tipos: rosas, tulipas, copos de leite...

Não entendia o descaso de todos em se aproximar do corpo, se perguntava se seria pelo cansaço de uma noite em claro ou haviam iniciado os preparativos para o enterro. Vagarosamente se aproximava do caixão...seus passos eram trêmulos, desnorteados. Olhou por baixo do pano que cobria seu rosto...em prantos se afastou. Agora havia entendido a repulsa de todos...

Olhava naquilo e não acreditava. Por causa do acidente, para o enterro, tiveram que costurar toda a sua cara e maquiar. Parecia um quebra-cabeças de retalhos todo remontando. De fato, ficou horrível. Nada que se comparava com a beleza que a jovem tinha em vida. Era outra coisa, muito pior, quem havia reconstruído o rosto de seu cadáver realizou uma brincadeira de mal gosto.

Haviam costurado o rosto de seu corpo com um sorriso...maligno. Parecia que o corpo dela estava debochando de quem olhava pela fresta da pequena janela que permitia verem seu rosto. Se afastou com muita raiva, queria ver seus familiares. Descobrir o que fizeram com seu cadáver.

A mãe dela estava em choque e a base de medicamentos. Estava sentada na cozinha, olhando para o nada, alheia para o que acontecia. Muito triste e transtornada Ângela tentava conversar com a mãe, tentava tocá-la. Pedir desculpas das vezes que falhou, dizer que a ama. Tudo em vão, ela permanecia ali, alheia ao mundo.

Ângela permaneceu ali por quase uma hora tentando algum contato com a mãe, no fim quando quase se afastava. A mãe dela olhou para o seu lado e disse:

- Ó minha filha eu te amo tanto...

Arregalou os olhos, parecia que ela finalmente a havia visto, ouvido sua voz. Mas não, parecia que os efeitos dos remédios estavam cessando. A mãe dela se jogou sobre o caixão aos prantos e dizia:

- Porquê você morreu? Que tragédia! O que fizeram com o seu lindo rostinho! QUEM fez isso com o seu rosto, ó meu bebê, eu te amo tanto! Volta! Volta...

A pobre alma não agüentou ver aquilo, se afastava. Enquanto uma de suas tias tentava tirar a pobre mãe de cima do caixão e entupi-la novamente de medicamentos. Resolvera ver o pai. Ele estava pro lado de fora da casa conversando com os tios e alguns primos.

Desconsolado segurava uma foto dela e a alisava carinhosamente. Falava com os irmãos e genros:

- Até onde eu sei, ela foi atropelada, pois estava correndo de alguém. – Dizia com uma voz fraca. – Mas se eu pegar o cara que fez isso com o rosto da pobre...

- Tem razão irmão, já conversei com um amigo meu da polícia. Estão investigando esse absurdo. – Dizia o Tio Pança, um velho advogado.

- Eu verei no necrotério. Já trabalhei lá. – Disse seu primo Astolfo, enfermeiro. – Mas e a amiga da Ângela como ela está? Aquela que ela estava na casa ontem?

- A Adriana? Está internada em choque num hospital. Pobre...não diz coisa com coisa.

Disse que recebeu uma ligação de minha filha as duas da manhã. A essa hora minha filhinha já estava morta e o registro do celular dela, a última ligação foi às 8 da noite quando ela me ligou avisando que ia na casa dela.

- Estranho... – disse os que estavam em volta dela.

A morta olhava aquela conversa atônita. O celular dela estava sem bateria antes de sair da casa de Adriana e o que teria amiga? Isso ficaria pra depois. Tinha que descobrir quem havia profanado seu cadáver.

Continua..

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