sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

No mundo dos espíritos

Parte 27


- Estamos aqui por outro motivo, que não lhe compete. Agora venha, é ora de encarar seu destino.

- Me digam, o que farão comigo?

- Se você não soube aprender pela dor, por tanto tempo invadindo o mundo humano e usando outros espíritos. Iremos levá-lo pra onde não prejudicar ninguém, e pelo contrário, se tornará um escravo e poderá lamentar pela eternidade os seus erros...

- Não! Calma aí! Me perdoem! Lá não, por favor...

- Suas lamentações de nada servirão. Te deixaremos no fundo do umbral, no Limite.

Lá será disputado pelos seus novos mestres.

Assim em uma velocidade impressionante abandonaram o hospital em um rumo desconhecido levando Slototh. Não sem antes deixar uma palavras para a Velha:

- Senhora, assim que estiver pronta iremos voltar para buscá-la, estaremos aguardando seu chamado em outro plano.

- Pois bem, então temos um acordo.

E assim se foram.

Enquanto isso Ângela alheia até a presença daqueles estranhos seres tentava desesperadamente acordar a amiga. Ela sabia de dentro do seu coração, era chegada a hora da despedida final.

- Levante-se Adriana, levante-se, vamos! – Disse Ângela chorando, desesperada tentando pegar na mão da amiga em vão.

Com a visão turva, como se voltasse de um sonho, a amiga acordou em meio a névoas.

- Dri, está na hora de eu ir! Minha missão com você acabou! Tenho que seguir o meu caminho!

- N-não, por favor, eu preciso de você! – Disse aos prantos.

- Não dá amiga! Mas eu ainda estarei com você de qualquer forma te protegendo! Eu prometo!

- Por favor... – Disse em voz fraca vendo o rosto de Ângela desaparecer até se tornar um vulto e por fim sumir em sua frente. Ainda chorando muito desmaiou de cansada.
A Velha devagar, e com um certo pesar, retirou Angel dali e foi tentar acalmá-la e ter uma conversa que certamente a interessaria.

Enquanto isso enfermeiros absortos assistiam as estranhas cenas finais do acontecido, a família de Adriana desesperada pelo repentino sumiço da filha e sabendo que semanas antes ela fora internada em um hospital psiquiátrico pela própria mãe, finalmente acharam a ente querida num hospital assustando a todos que trabalham ali e alarmando acima de tudo a imprensa pela presença de uma possuída.

Logo ela saiu do hospital e voltou para o conforto da família, mas crises enxergando gente morta e sempre com fenômenos poltergeist ocorrendo a sua volta somando-se ao preconceito e a má fama gerada pelo ocorrido, se isolou em casa com sua família e sempre distante pensando na falecida amiga e no quanto sua vida havia mudado desde então.

A sua família não suportando mais a ocorrência de estranhos fenômenos sobrenaturais resolveram levar a garota para uma estranha escola que com muito custo descobriram nas serras de Minas Gerais, o local intitulado “Escola Corretora Sanctum Sanctorum” mantida secretamente pelo governo federal. Lá Adriana conheceu uma nova amiga chamada Marta, que anos antes viera de uma cidade do interior de Minas com uma história semelhante.

Isso tudo aconteceu dois meses após o último encontro entre Ângela e Adriana.
Agora voltemos ao presente e ao hospital onde a Velha e Angel ainda permaneciam:

- Não chore garota, você sempre estará com ela, acredite! – Disse a anciã entusiasmada.

- M-mas...

- Fique calma, confie em mim. Antes de mim iniciar o seu aprendizado, lhe resta uma última missão antes de partirmos para explorar o Mundo dos Espíritos.

- M-missão? E qual seria?

- Sua família querida, recomendo altamente que você os veja antes de finalmente partirmos.

- Tudo bem, vamos, não é muito longe! – Disse agora com um pouco de entusiasmo.

Depois de quase dois meses de sua morte ela iria finalmente rever seus familiares, finalmente um momento de paz, tranqüilidade e encontros, ela pensava. Mal sabia que a sua missão derradeira relacionada diretamente ao mundo humano não seria um mar de rosas...

Estava amanhecendo e ambas estavam na frente da casa de Ângela. O seu lar ficava numa rua movimentada da cidade, era a única casa da rua, o resto era tomada por prédios. A luz do sol saía vagarosamente por detrás de uma grande nuvem banhando a casa da garota num tom laranja claro.

Ela ficou ali por minutos a observar a frente na casa, com o bater do sol se misturando ao tom rosa da casa a mesma parecia a brilhar. A convidando a entrar, mostrando que ali era um lugar sagrado. Esperou por minutos ali parada, admirando o lar por onde viveu todos os seus 15 anos. Relembrando os bons momentos em que havia passado ali, com a família e amigos, toda hora alternava entre lágrimas copiosas e risadas frenéticas. Até que a Velha interrompeu seus pensamentos:

- Minha filha, me desculpe, irei me retirar por alguns dias, tenho uma negociata com aqueles senhores que nos ajudaram no hospital. Tome cuidado, nesses dias estará sozinha para resolver os problemas da sua família, a coisa não anda boa o quanto pensa. Voltarei em três dias para iniciarmos a nossa jornada, boa sorte.

- Obrigado Senhora, ajudarei eles no que puder.

- Ok, mas é a sua família, a palavra erro não existe.

- T-tudo bem.

- Então até mais.

- Até.

Assim a misteriosa anciã caminhou em direção contrária a menina e parou de frente a ela com um olhar sério, apesar da distância, ela ouviu umas palavras que a Velha disse, mas percebeu que não eram pra ela.

- Estou pronta para negociar, retornarei em três dias nesse mesmo local, podem me levar pra aí.

Segundos se passavam e Ângela continuava a olhar a anciã parada como uma estátua. Como se um raio a atingisse ela sumiu do local em que estava parada. A garota nem teve tempo para se assustar com a cena que via, ouviu um ranger muito familiar, era a sua mãe abrindo a janela do que era o seu antigo quarto.

Se aproximou e se assustou com o que viu: sua mãe estava chorando e com um olho roxo, atrás dela havia um vulto familiar. Percebeu rapidamente que era outro espírito e se assustou ao descobrir quem era. A alma era de seu avô que havia morrido na sua infância, ele era alcoolotra e desempregado pelo que lembrava. E pelo que sua avó falava uma má pessoa, fez coisas terríveis, estavam bem atrás da mãe que estava na janela, soltando uma risada nada amistosa...

Estranhou a reação de sua mãe na janela, assim como a do espírito de seu falecido avô. Resolveu entrar na casa para descobrir o que estava acontecendo. Antes de agir resolveu ficar na surdina para ficar a par da estranha sensação que a rondava. O espírito do seu avô não a via por um fato óbvio, espíritos conscientes só são vistos quando querem por outros, exceto pelos perturbados e os que não têm ainda ciência de sua morte.

De início foi para o seu antigo quarto, estava intacto, uma leve brisa balançava as singelas cortinas brancas sob sua cama. Seu computador desligado ao lado da mesma, seu abajur roxo, o tapete estava mais que branco do que jamais foi. Seus ursinhos sob a cama pareciam descansar tranqüilos a espera de sua dona, os seus pôsteres de artistas estavam até lustrosos pregados na parede, por um momento parou e chorou, lembrou da vida feliz que tinha em meio à todas aquelas coisas, os tormentos e confusões que permeiam a mente de adolescentes.

Continua..

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